domingo, 1 de fevereiro de 2009

ex-nós

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estranho isso. isso de coração bater. isso também. essa conexão perigosa entre músculo que pulsaessente e massa que faz pensar. não que importe. a seleção se faz naturalmente.
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"gosto disso na gente, isso de não precisar começar uma conversa idiota com papo idiota. geralmente vamos logo para a idiotice que interessa."
"brilhante! e lindo isso."
eu sorria grande, deitada no colo dele. apoiou o cotovelo nas coxas e pressionou um dos meus olhos com a mão esquerda. eu gostava disso.
"que foi? pensando em quê?"
"em como você é realmente doida. louca varrida. e em como a gente viveu bastante coisa"
"ih..."
"não estou querendo discutir você, relaxa. está mais pra um 'te conheço hoje como a mim mesmo', um 'eu sei exatamente aonde você vai complicar as coisas'. meio suicida, não?"
"esse momento ex-casal? bastante. e fico sim, pensando, não acho que me conheça a esse ponto, até porque mudei tanto. você mudou tanto."
"de todo modo, as tuas mudanças são previsíveis para mim. não que eu ache isso uma coisa ruim. é uma das coisas bonitas na amizade: quando você sabe, ou acha que sabe tudo"
"acho perigoso. saber tudo é perigoso. ser amigo é perigoso."
"ih, melhor voltar a falar de coisas-idiotas-para-complementar-conversas. faculdade, namorados, então..."
"não. vamos falar mal de você, então..."
"injustiça! passamos metade de nós juntos falando mal de mim."
"e porque você acha que fiquei por tanto tempo? é o meu boato-confirmado preferido. cheguei até a inventar alguns difamadores!"
ele levantou uma das sobrancelhas. era a sua maneira de demonstrar sabedoria.
"acontece que todo boato-confirmado deixa de ser boato."
"somente se eu quiser. no meu mundo, boatos serão sempre boatos, mesmo que confirmados."
"me conta..."
"o quê?"
"porque tanta coisa ruim? digo, no nós da gente?"
"não sei."
parei. uma tentativa inútil de buscar alguma explicação sensata. "você sempre foi tão tudo, e eu sempre tão metade das coisas. nunca apreciei muito a idéia de ser metade, sempre quis ser tudo. se não fosse pela minha visão deturpada do amor. eu ficava querendo que você fosse minha música preferida, mas, às vezes, você era meu sertanejo, meu vitoreleo. eu odiava isso. isso de não conseguir criar um você pra mim. e quando a gente se separava, eu ficava esperando até que você fosse minha canção preferida, de novo."
"eu odiava quando você sumia."
"eu odiava estar ao seu lado às vezes. precisava de música nova. mas eu tinha saudades, passado um tempo, a música velha preferida tocava em um momento inusitado, me doía o coração, e eu voltava."
"passei todo o nosso nós querendo ser razão."
"e você nunca conseguiria. nenhuma razão. nem você. nem eu. eu sempre voltava. é que também teve uma época em que eu te via menos como amor, você ainda era o meu amor, mas mais aquilo físico, sabe? momentos em que você era só físico, e eu me sentia confusa, às vezes."
"complicada você, ein?"
fechou os olhos. "adorava isso... tá, continuo adorando." abriu. "mas o nosso nós agora é diferente. eu sei que você precisa do mundo."
"sabe, eu adorava andar de ônibus à noite, saia da sua casa, fones nos ouvidos, escutando uma daquelas músicas que falam de amor e alternam ritmos tristes/alegres/tristes/alegres. olhando as lâmpadas. lâmpadas que com olhos semi-fechados minha retina transformava em bolas grandes de fogo. é sério. é lindo. me sentia em um filme, mas normalmente músicas são curtas..."
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e ele me olhava. e eu falava. e falava. e pensava.
o nosso nós nunca sería o meu filme preferido. aquele, com bolas de fogo, ao som de uma música viciante...
tão injusto com ele.
estávamos diferentes. porém, nossas mudanças nos levavam um ao outro. eu sentia...
tão injusto comigo.
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3 comentários:

Anônimo disse...

As duas pessoas desse texto estão ligados e pode não ser o filme preferido,mas é um filme e ele é unico,nenhum outro subistitiu.
Injusto..não acho que seja.
Sou sua fã..e seu texto é simplemente revigorante.
teamo

Anônimo disse...

ser amigo é perigoso!
de onde será que eu já ouvi isso...? ;}
ser citado exulta a minha alma
te amo

Anônimo disse...

caráleo...nunca tinha passado por aki...
vc tem o dom decunforça de escrever...
e ainda sem saber de nada, decifrar nada é interessante demais ler.
:**
amo-te!