joana era, antes de tudo e qualquer coisa, um engano-anatômico. órgãos no devido lugar, membros inteiros, pele quente, boca fresca. mas o coração, ah, esse ficava na garganta, pulsante e pequeno. é verdade que ninguém percebia, mas se ela abrisse bem a boca, dava para enxergá-lo.
-um dia desses ela teve febre. frio cortante. necessidade forte de cobertor. aparatou na casa de tadeu como se toda aquela baboseira de harry potter fosse possível. no primeiro dia, ele lhe ofereceu cama e chá-quente. abraços e antibióticos. mas joana sempre teve dificuldade em engolir e digerir. tadeu mesmo, não chegou sequer a passar pela língua. ficou preso na boca de joana, tornando-se parte da mucosa até se espalhar por toda a pele. joana podia sentir tadeu em cada pêlo. curada da febre, tadeu levou joana a um café para comer pastel. depois, sutilmente, ele lhe disse que devia ir embora, arranjar um rumo, voltar pra casa. - e o que faço com essa paixão que bate aqui? – perguntou, meio desintegrada. - coloca em uma gaveta, joana. esconde isso de você. aí, depois, quando for procurar, ela já acabou e você continuará viva. joana desejou quebrar a casa inteira. atirar os discos de tadeu ao mar. livros também. dvd's.
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foi embora silenciosa no final da madrugada. pegou a primeira condução. chegou em casa cedo. ninguém tinha notado sua falta. então, se enterrou na cama por três horas contadas. colocou tudo o que existia de jazz na sua playlist para tocar. dedilhou a própria pele. desalinhou os cabelos. depois tomou um banho demorado, passou o perfume da mãe e colocou um vestido branco, deu "bomdia" a todos que estavam em casa e foi pro quintal. verificou que ninguém via onde estava e acariciou o coração mal feito por ela desenhado no muro dos fundos no auge de uma paixão infantil. nada escrito. joana tremia. inesperadamente, espirou. aí, o coração quente destrambelhou-se a bater. joana não teve dúvidas, enfiou a mão goela abaixo e o arrancou sem nenhuma dor física, ou quase. cavou um buraco fundo, enfiou aquilo, e fechou sorrindo, orgulhosa por demais da própria desobediência em não colocar paixão em gaveta.
nãocolocarprasempre.
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do depois, pouco sei de joana.
dizem que viveu sem muitas dores e que até foi feliz.
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porque amou por que almou
se sabia
p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?
ah porque amou
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesmo
irmão retrato espetáculo por que amou?
se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja
permita cavalheiro
amigo me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor, caro colega, este não consola nunca de núncaras.
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amar-amaro, drummond
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2 comentários:
... E percebeu cedo, que o mundo não estava preparado para as suas sentimentalidades.
'... não me falou em amor. Essa palavra de luxo. ' (Adélia Prado)
Quando a gente é que decide onde e como vai esconder o coração de garganta tudo fica mais fácil, feliz e sem muitas dores... Portando se por acaso mandarem enterrar vamos guardar em gavetas, se sugerirem os dois a gente enfia-o num aquário! Pq aí qdo a gente for tirar ele de lá pra mais um temporada, a gente tira do lugar que quisemos e bem entendemos.
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