o rapaz que dança desingonçado no show do otto não é você. o moço todo engomadinho lendo poesa barroca no ônibus também não. muito menos esse monte de caras levantando copos, sorrindo estridentemente e distribuindo abraços no barzinho. o que mais me dói na sua ausência é isso: esse mundo que fica gritando a sua falta em cada suspiro torto, em cada gole de cerveja gelada.
o amor que sinto por você é o mais puro e mais sacana que já senti. e já comecei e recomecei esse texto trocentas vezes. é que fico parando, porque é como se já tivesse dito tudo sobre você, sobre eu contigo, sobre a gente.
acontece que sempre vai existir a gente. e ouso dizer que por mais que pareça, a rotina não corrói, mas fica enfeitando nossas vidas com draminhas, draminhas do contidiano. eu prefiro bifum com cury, você prefere qualquer coisa com muito shoyo. e como eu odeio esse seu jeito de encher o yakissoba de shoyo e tudo ficar salgado e sem gosto.
também não gosto quando vou na sua casa, e você faz questão de me fazer sentir em casa. odeio como você me chama pra assistir seriado, enquanto ainda nem baixou, e fica me pergutando se estou dormindo, porque pense comigo: s'eu estiver, me acordar no meio do episódio não vai resolver muita coisa, já que você nunca vai voltar o episódio mesmo.
e eu fico quero odiar muito muitas coisas suas porque assim fico mais forte, mais segura diante de tudo que é sempre tão frágil.
amor pra mim é isso. como aquele último conto de "laços de família", onde a menininha vai ao zoológico querendo odiar tudo, mas tudo o que acha é amor.
só dá pra amar esse seu sorriso de menino, essas suas piadas sem graça, suas caretas no trânsito, sua falta de decisão que às vezes mais parece chatice, sua preferência por cerveja, sua falta de sono que sempre vai de encontro a minha enorme facilidade em dormir. logo eu, que sempre valorizei tanto o sono à dois, me vejo espaçosa, te espremendo e derrubando da cama.
no fundo mesmo, acho que o amor, amor mesmo, pouco tem de romântico. e troco quatrocentos e quinze ursinhos de pelúcia escritos "eu te amo", por uma tarde de doritos, coca-cola, seriados, roupas confortáveis e procrastinação ao seu lado.
com o tempo, eu fui perdendo meu jeito de romantizar as coisas, fui desaprendendo as palavras doces, cheias de flores e bonitas. mas sempre abro um sorriso ao pensar que no nosso mundinho tem tanta coisa, mas tanta coisa, que não há dicionário ou poeta que conheça.
Nenhum comentário:
Postar um comentário