sexta-feira, 5 de setembro de 2025

barco

o barco segue lento, quase como se arranhando a água. dois corpos nus deitados, pele contra pele, como se nunca tivessem vestido nada.
o céu cinza, pesado, refletido nas fachadas de tijolos coloridos molhados.

— as vezes acho que amar é suportar a ausência — disse ada, a boca quase encostando no ombro dele.

otto sorri curto, um meio gesto que quase não chegava a nascer.

— amar é aceitar que vai doer. sempre — disse. 

ela passa a mão no peito dele, como se procurando um ritmo secreto.
o silêncio entre eles é menos silêncio e mais correnteza, puxando os dois para algum lugar que não sabiam. é denso, mas não vazio. o tipo de silêncio que respira junto, pele com pele.
otto beija o pescoço dela devagar, sem urgência, como quem escreve uma carta que nunca vai enviar.

— mas e quando a saudade é maior que o corpo? — ada pergunta se virando de lado, olhando os olhos dele que refletiam a água. — maior do que a cama, da urgência, do que as horas?

otto demora a responder. talvez estivesse com medo de nomear o que já sabia, mas nunca admitiria.


— aí a gente se afoga.

o motor do barco tosse baixo, como se confirmando. e por um instante, parece que o mundo inteiro era feito só daquele espaço estreito: o plástico frio sob as costas, o cheiro de diesel misturado a pele, o leve balanço que lembra um útero.
ada ri sem jeito, mordendo o lábio.


— então é isso? estamos sempre prestes a nos afogar?

ele a puxa para perto, um gesto simples, quase instintivo. o corpo dele contra o dela, quente, vivo, frágil.


— talvez seja exatamente isso. talvez amar seja respirar água e acreditar que é ar.

os dedos dela deslizam pelo quadril dele, mas o desejo vinha junto de um peso melancólico, como se fosse impossível separar tesão de solidão.
do lado de fora, bicicletas passam, turistas riem, flores caem das varandas. dentro, nada além de dois corpos nus tentando traduzir o indizível.
ada fecha os olhos, e sussurra baixo, quase como sem querer ser ouvida. 


— só não quero que a saudade seja maior que nós dois.

otto não responde. apenas beija o espaço entre o ombro e o pescoço dela, como quem pede desculpa por todas as respostas que nunca terá.
do lado de fora, as águas batem contra as paredes de pedra. dentro, eles se enroscam como se o corpo fosse uma maneira de rezar contra o vazio.
e o barco segue, carregando aquele silêncio cheio de amor, desejo e uma falta impossível de nomear…



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