hoje, pós terapia, me dei conta que continuo carregando o passarinho da desconfiança no bolso. por muito tempo achei que ele era um companheiro necessário, desses que nos ajudam a atravessar as estradas da vida sem cair nos mesmos buracos.
há um homem diante de mim. ele não está indo embora. ele não está se afastando, nem escondendo a própria presença, nem retirando aos poucos aquilo que oferece. e talvez seja justamente isso que me assuste. porque as ausências eu conheço. sei reconhecer seus passos, seus ruídos, seus prenúncios. mas a permanência ainda me parece um bicho raro. então me pego examinando o que não precisa ser examinado, procurando rachaduras nas paredes de uma casa que ainda está sendo construída, pedindo respostas para perguntas que talvez só o tempo possa responder. não porque eu queira desconfiar, mas porque existe uma parte antiga em mim convencida de que toda beleza traz escondida uma despedida.
o que tenho percebido, porém, é que o passarinho já não me protege como antes. ele me mantém acordada quando eu poderia descansar. ele me faz olhar para a porta enquanto alguém permanece sentado à mesa. ele me faz sofrer por ausências imaginadas enquanto a presença acontece diante dos meus olhos. e estou cansada disso. cansada de viver em estado de alerta, cansada de transformar possibilidades em ameaças, cansada de acreditar mais nos meus medos do que nos gestos concretos de cuidado que recebo.
não quero expulsar esse passarinho. ele nasceu de lugares reais. nasceu das dores que vivi, das perdas que me atravessaram, das histórias que ensinaram ao meu coração que amar podia ser perigoso. mas talvez tenha chegado a hora de abrir a mão. não para abandoná-lo, mas para libertá-lo. para que ele voe, deixe de ser carcereiro, volte a ser apenas memória. para que eu não precise mais consultar o medo toda vez que a felicidade bater à porta.
talvez seja isso que essa nova história esteja tentando me ensinar. talvez o outro não seja o problema que preciso resolver, nem a garantia que preciso obter. talvez ele seja apenas um espelho, onde consigo enxergar feridas mais profundas, aquelas que existiam antes dele e que continuarão existindo se eu não tiver coragem de olhá-las. e, pela primeira vez, sinto vontade de fazer diferente. sinto vontade de parar de procurar motivos para fugir. sinto vontade de acreditar no que existe enquanto existe. sinto vontade de permitir que o cuidado seja cuidado, sem submetê-lo a provas intermináveis.
enquanto isso, ele continua aqui. e eu quero aprender a permanecer também. não no futuro que invento, não nas histórias que o medo escreve para mim durante a madrugada, mas neste instante simples e imperfeito em que duas pessoas tentam construir alguma coisa juntas. quero me abrir para a possibilidade de que nem toda história bonita seja um aviso de perda. algumas histórias são apenas o que são: uma porta aberta, uma luz acesa, um convite delicado para abandonar os escombros e voltar, devagarinho, a ter fé na vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário