domingo, 4 de outubro de 2009

minha sorte

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sobre essas coisas de sorte,
a minha tinha nome, e se chamava heleno.
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ando percebendo que me policio para não pensar no senhor. o fato é que ainda não me sinto totalmente confortável com a sua ausência. e, pra falar a verdade, até hoje não sei dizer como é que ando existindo sem você. aí, quando uso um pouco esses neurônios herdados com grande generosidade divina, vejo que existe tanto de ti em mim, que é como se ainda vivesse aqui. e então, não tem como falar de mortes de pessoas que nunca morreram. foram dezessete anos de convivência bruta e quase diária. minha memória não é algo de extrema confiança, mas posso lembrar ano-a-ano todo estar e fazer que fostes por mim e para mim. tudo. lembro da maleta de dinheiro, e da festa que me deixava fazer na budega em frente à aquela casa cheia de flores-de-encaixar. lembro também do meu te contar sei lá quantas vezes as histórias do macaquinho que colocou a mão no pote e do pulo do pato, vive em mim, sorriso debochado ao ver a tragédia do pato. e por isso me tornava repetitiva, tantas vezes, gostava de te fazer sorrir. aquele riso com vontade. lembro dos seus pitacos nos bonequinhos de papelão, e ajudando a fazer a cola de goma para que todos ficassem lustrosos e bem arrumados. lembro do sentar na cadeira de balanço contigo e ficar ali, enquanto você contava histórias daquela cidade estranhamente interessante. sempre te achei a pessoa mais adimirável de todo o universo, não só por tudo que era, o excelente sanfonerio e poeta, mas por todas as coisas que me ensinou. e não foi pouco. me mimou tanto. tanto. que desde pequena nutri um gosto não muito comum em crianças da minha idade por mel de engenho com farinha. e não existe nada mais justo, porque tenho que concordar que não existe coisa melhor nesse mundo, principalmente depois de se fartar com feijão de arranca. cresceu comigo. e digo que cresceu, porque não envelheceu. lembro de você me irritando todo sábado para que eu dissesse gostar mais do senhor do que da minha avó, e na minha cumplicidade infantil, sempre fazia seu jogo. morria de rir. sempre tão criança quanto eu. e assim me acompanhava enquanto chupava aqueles picolés que insistiam em derreter e me sujar toda, para você abrir aquele sorriso dos mais gostosos. aí, eu te via colocando duas jujubas na boca e não entendia muito, porque não havia motivos para ser tão guloso assim, mas eu ria. aí, eu me aquietava e sentava no braço do sofá para assistir um pouco de tevê contigo. e me lembro de depois de um tempo, fazer por ti o mesmo que fez por mim. te cuidava, dava remédios e prestava atenção para que não fizesse estripulia. e já não era mais você que me servia um prato cheio de mel, e sim eu, que, contrariando avó e mãe, sempre cedia um pouco. ou ficava tentando advinhar o que queria dizer, nunca com metade da competência que o senhor me tinha. e secar suas lágrimas, e desamarrar seus braços, e de me finjir forte, enquanto cruelmente te aplicavam, pela nem sei te dizer quantas vezes, uma injeção. e assim, depois de acabada a cola branca que eu estava usando, vi que tudo que aprendi contigo, hoje já sei fazer sozinha, de cola de goma ao bom humor nas piores situações. e com toda sinceridade, também herdada, não sei mesmo falar de sua ausência, ainda que ela se faça toda crua e fria, naquela cadeira de balanço hoje sem sentido, mas para mim, sempre será aqui dentro, e assim, sempre vivo e nunca morto, será.
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o melhor e o mais lindo dos avôs.
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3 comentários:

andré disse...

heleno é mesmo nome de avô.
belíssimo texto.

Lívia disse...

O mais belo textos sobre avôs que já vi. :)

.tai. disse...

Tão lindo e tão singelo como só você poderia fazer.