segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

04:16

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o sono não me acerta. minha cachorrinha chora a noite toda. minha mãe tenta dormir na sua poltrona desconfortavelmente fria. minha tia resmunga em um leito de hospital. meu amor está longe.

queria ter o poder de fechar os olhos e não ver mais droga de nada. tenho me cansado dos latidos. o seriado no notbook é apenas pretexto pra iluminar a madrugada escura. o nó na garganta é reflexo da solidão que me invade tarde da noite.
estou abusada dessa forma com que a vida consegue ser, feia e bela ao mesmo tempo, cansa.
me sinto a clarice. quero uma celícia. preciso. de um livro, uma fogo no quarto, um hamster chamado ulisses, o céu de ícaro.
preciso de mar, água, uma voz que saia e um amor que dure pra sempre.
noite é longa.
04:30.
palavras arranham a parede da minha garganta e tudo o mais que consiga sentir. uma vontade imensa de extravazar, gritar, vomitar tudo o que não sinto e sinto tanto, em palavras que extrapolam qualquer e todo dicionário.

lembro de pessoas. o senhor com o cigarro na mão esquerda, a senhora ignorada pela neta no hospital, o homem chorando ao enxergar a morte de perto, ao lado.
morro de medo da loucura. me apego à toda realidade inventada para fugir dela.

queria eu uma realidade com gosto de mel. uma realidade doce. então que seja doce, me diz caio.
mas é que tudo me dói por dentro de um jeito muito peculiar nessa madrugada em que o verão toma forma e o calor inquieta o coração. pareço criança boba dentro de um pijama amarelo e moletom cinza. criança boba e com medo de escuro. a criança que sempre acabo sendo.
queria agora algo vivo, excitante, surreal e doce. a velha companhia na varanda, um disco na vitrola que não existe e uma máquina de escrever no canto do porão. máquina essa que não tenho, porão esse que não existe. é que sou toda assim: eu não me caibo em mim. vivo em porões e sotãos que invento, escrevo histórias que não vivo, sentimentos que não sinto e sou tão pouca palavra quando muito sinto.
quando muito sinto só escrevo quando a agonia queima e arde até os ossos.
só amo quando o querer consegue alcançar o coração.

não faço mais idéia do que quero dizer.
água-viva.
criança, insone, carente, burra.
tudo o que queria realmente era poder dormir, de verdade.
04:47.
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Um comentário:

andré disse...

vai dormir, criatura!