uma pequena saudade/lembraça daquela lembrança/saudade
ficou pensando, enquanto colocava o sorvete dentro do liquidificador, quando é que ela decidiu que iria mesmo tomar milk-shakes sozinha. um ano, meio, nem isso atrás, eram perspectivas de tal sobremesa juntos, pra sempre.
"baby, você quer um maltine? vou fazer um pouco pra mim" - "quero sim, querido."
o milk-shake dele sempre um pouco doce demais pra ela. maltine demais, exatamente. mas ainda assim era milkshake e tudo o que no fundo (da moral, não da taça, que ele enchia de calda, um mimo) importava era a companhia.
pensou também quando é que ela resolveu que ia trocar as saias compridas e exageradamente estampadas, que ele tanto elogiava, por calças jeans e camisetas lisas e não se importar mais em deixar o cabelo crescer ou não.
depois, pensou em porque era que ela não ouvia mais todas aquelas músicas estranhas e nem ria das coisas. pensou com mais força ainda quando é que ela tinha escolhido que ele saísse de vez da sua vida. se bem que aquilo não foi bem uma escolha... as coisas foram acontecendo e numa noite, ele disse que ia embora e foi mesmo. ela achou que como sempre ele iria voltar, de calças desbotas ou não, folgadas ou não, mas ia. ele não voltou. ele não voltou e ela pareceu não se importar, porque ela nunca se importava demais com nada e menos ainda com essas coisas de amor. o amor da vida dela era só uma perspectiva de milk-shakes e algumas outras coisas que o tempo levou e ela nem sequer consegue lembrar.
mas ao pegar aquela taça que ela, sem perceber, colocara calda no fundo, como ele, como as dele, como as dele para ela, e dar passos largos e leves até o computador alguma coisa faltou. uma ausência. uma ausência daquilo que era e não é mais, e quem sabe nunca mais vai ser. aquilo que era pra ser pra-sempre, bonito, inseparável, vivo e real. mas até as coisas pra-sempre, bonitas, vivas, inseparáveis e reais um dia qualquer acabam. só acabam. depois de uma conversa, depois de um achar-a-escolha-certa. depois de uma simples conversa noturna.
todos esses pensamentos não eram nada, nem ao menos uma perspectiva de que eles fossem voltar. era só e simplesmente saudade. saudade daquilo tudo que era pra ter sido e não foi. desde passeios filosóficos se equilibrando em meios-fio, músicas à praia, shows alternativos e viagens de mochileiro até às tardes lendo livros em redes persas, como se o mundo fosse só isso.
sorvete, ovomaltine, leite, milk-shake e o abraço. estranha ausência, um aperto no peito. mas peloamordocéueterno, era só uma taça de milk-shake e ela nem lembrava se ele gostava de colocar biscoitos também ou se era apenas maltine.
era só mais uma música, nando reis nos fones de ouvido e o fato dela lembrar que ele era tinha dito que gostava de nando reis, justo daquela música que nando reis cantava com cássia eller, segundo ele: uma música brega, e ainda sim bonita.
era só porque ele era o único cara que tinha coragem de falar pra ela o que pensava de verdade e porque ele era o único que respeitava o fato de ela ouvir essas coisas que nem são tão-legais.
era só porque ele até gostava de música-de-barzinho escondido e ela bem que sabia que até tocar ele sabia, e achava uma graça. e porque ele era o único com as cantadas-de-pedreiro-legais e também com as declarações-simples-toscas-e-bonitas, mesmo quando vinham em forma de brigas que a faziam perder o chão.
era, na verdade, sábado, um pouco de leite gelado no copo do liquidificador, um pouco de água com sal nos olhos e lembranças de algo que um dia pode até ser de novo, quem sabe, um dia.
e ela só ficou pensando que era tudo porque existia uma ausência imensa, um buraco meio que sem cor no meio de tudo, e que ele, talvez, tinha sido a única coisa, pessoa ou ser que ela já amou de perder chão, chaves, cabeça e todo o resto. era, talvez, porque era isso que preenchia o frio-coração dela. coração que mil taças de milk-shakes solitários só esfriavam mais. muito mais.
3 comentários:
viajei agora lendo esse texto, talvez porque eu tava tomando sorvete na frente do PC... vai saber
mt lindo, igual vc
=D
te amo Juli
fazia silêncio na praia.
e sob o sol desimpedido, tudo fazia frio.
um busto lindo apareceu na praia. e o que ela cantava
com os olhos
encolhia, congelava
a areia, o sol, o ar.
rolava pra trás o rio.
Interessante essa sua ligaçao com o milk shake! =]
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